1969 foi um baita ano. Vimos o primeiro pouso na lua, a reunião pacífica da juventude em Woodstock e o nascimento da profissão do planejador financeiro pessoal.
De acordo com Denby Brandon e Oliver Welch, autores de A História do Planejamento Financeiro (Wiley & Sons, 2009), em 12 de dezembro de 1969, treze homens se reuniram no O'Hare Hilton em Chicago com a tarefa de cobrir múltiplas questões financeiras pessoais e como esses assuntos interagem para ser um serviço único e uma maneira mais eficaz de ajudar os clientes a tomar decisões financeiras maduras.
Os últimos 50 anos viram uma evolução dessa ideia básica e uma verdadeira revolução que mudou a maneira como o público se relaciona com suas finanças.
Para os participantes da reunião do O’Hare era evidente que os clientes se beneficiam mais de um processo profissional que integra os vários aspectos de suas finanças do que tentar abordar essas questões de forma fragmentada por meio da venda de produtos.
Desde então, temos visto a criação de várias organizações no mundo todo com o objetivo de transitarem no grande mercado do planejamento financeiro pessoal. Aqui no Brasil temos a PLANEJAR (www.planejar.org.br) buscando representar, de forma transversal, este movimento.
A evolução destes últimos 50 anos também viu a criação de um código de ética, normas práticas, regras disciplinares, procedimentos e o nascimento de várias empresas em distintos modelos competindo no mercado de planejamento financeiro pessoal.
Esses primeiros 50 anos também trouxeram uma boa dose de desafios. Aqui, no começo deste texto, destaco, de forma bastante resumida, dois desses desafios, um já vencido e um outro, este no Brasil, ainda em pleno embate.
Há cerca de 10 anos atrás a FPA (Financial Planning Association) nos EUA venceu uma luta contra a SEC (Securities and Exchange Commission, o equivalente a CVM nos EUA) em um processo que resultou na manutenção de uma distinção entre a atividade de venda e a atividade de aconselhamento, algo que está em discussão e consulta aqui no Brasil.
A resolução do embate nos EUA trouxe mais transparência ao mercado, mas não sem a sua ausência de clareza, o que coloca o mercado americano em “constant watch” em suas práticas em planejamento financeiro pessoal.
Eu acredito que tenhamos, aqui no Brasil, uma oportunidade para observar o que eles fizeram de certo e aprimorar, podendo observar o que fizeram de errado, e não persistir.
Tenho confiança de que este será o caminho, mas nesse artigo não irei desenvolver isso. O meu objetivo aqui é apresentar uma foto de como o mercado está, com seus acertos e desafios e propor um filme de como ele deverá estar daqui a cerca de 50 anos, quando estaremos comemorando o centenário desta nobre atividade.
Vamos nessa?
Claramente, há muito para os planejadores financeiros profissionais se orgulharem.
No mundo são 26 países associados ao FPSB (https://www.planejar.org.br/institucional/fpsb/), congregando cerca de 181 mil profissionais CFP®.
Nos EUA temos uma presença relevante e crescente na academia, com mais pesquisas sobre todos os aspectos do planejamento financeiro e, todo ano, novos programas de graduação que educam novos profissionais são criados.
Ao redor do planeta, novos modelos de negócio, novas empresas e renomadas maneiras de cobrar são criadas.
Uma característica de uma verdadeira profissão é abordar uma necessidade de toda a sociedade. Vivemos, em grande parte do mundo (pelo menos o ocidental), a partir de uma organização social que tem na moeda o seu símbolo máximo, e saber bem conviver com o dinheiro é simplesmente crucial para o desenvolvimento de pessoas, de famílias e de nações.
A profissão do planejador financeiro nunca foi mais necessária. Finanças pessoais ficam mais complexas, e é crescente a responsabilidade pela estabilidade financeira pessoal que recai sobre os ombros do público.
A demanda aumenta na medida que mais e mais consumidores entendem o que é o verdadeiro planejamento financeiro pessoal, motivando a indústria a evoluir e mudar seus modelos para uma prática mais centrada no planejamento e menos concentrada no investimento.
Também nunca houve mais responsabilidade sobre os ombros dos planejadores.
Aqueles de nós, que buscam profissionalizar o planejamento financeiro, há muito defendem que um modelo genuinamente cliente-centrado é o único padrão que faz sentido para a profissão e que qualquer outro profissional atuante em outro modelo, que não o direto, deveriam, no mínimo, conduzir seus negócios como se estivessem debaixo de tal responsabilidade moral.
Não encontro um profissional que contra-argumente isso, mas com a mesma escassez encontro profissionais que defendam isso a partir da clareza como reforço da transparência. Já me manifestei, mas não me privo do julgamento, repito:

Além da manca defesa da (apenas) transparência, o mercado de planejadores se acostumou com o uso do termo fiduciário como manifestação de uma posição a favor dos interesses do cliente.
E aqui, a meu ver, reside mais um cuidado.
Da forma que vejo, quando uma profissão precisa encontrar um termo para articular o que deveria ser a sua pedra fundamental, tal expediente só pode ser compreendido como a manifestação não intencional de que estamos perdidos em nossas convicções, e precisamos de uma maneira de ter mais conforto, sem perceber que estamos pagando o preço da verdade (aka clareza).
Um planejador financeiro pessoal precisar dizer que é fiduciário é como um médico dizer que faz check-up, um dentista ter que proclamar que escova os dentes ou, me permitam o exagero, um alfabetizador promover que sabe ler e escrever.
Em resumo, é um absurdo que passa despercebido de nossa indústria pois há a percepção constrangedora de que não somos, de fato, o que clamamos ser.
E nossas famílias e consumidores começam a perceber isso, o que significa que temos que estar atentos aos movimentos. São diversos os exemplos de profissões e indústrias que foram reduzidas à insignificância por não perceberem o que estava diante de seus olhos, por puro orgulho, costume ou incompetência mesmo...
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