"O modelo de negócio é aquele que acompanha o fluxo do dinheiro"
É com esta afirmativa que inicio um dos textos mais enfáticos e polêmico que já escrevi, mas me acompanhe até o final, pois o texto é uma abertura para um diálogo e uma reflexão continua, o que faz deste conteúdo algo muito mais relevante do que conseguirei expressar com palavras.
Existem apenas 3 modelos de negócios em serviços financeiros destinados às pessoas físicas:
1) Modelo Indireto: também conhecido como modelo transacional. O profissional é remunerado por uma comissão do produto vendido / distribuído ao cliente e/ou por um % sobre os ativos do cliente.
Este é o desenho do modelo indireto:

2) Modelo Híbrido: modelo no qual o profissional é remunerado pelo cliente, pela parte intelectual do trabalho e também pelas empresas distribuidoras de produtos financeiros de investimento e de seguros. Geralmente o valor cobrado do cliente é baixo para não representar uma "barreira de entrada" e o maior ganho vem da criação de uma carteira de clientes nas plataformas de distribuição, assim como no modelo indireto.
Desenho do modelo híbrido.

3) O Modelo Direto: o profissional é remunerado única e exclusivamente pelo cliente. Neste modelo, em hipótese alguma o profissional é remunerado de forma transacional, ou seja, através da venda de algum produto financeiro, tampouco é remunerado através de um % sobre os ativos dos clientes.
Desenho do modelo direto.

Em resumo:
"O modelo de negócio é aquele que acompanha o fluxo do dinheiro"
Para simplificar:

Vamos analisar os 3 modelos a partir de 2 lentes. A primeira delas, a lente da transparência, é amplamente usada no mercado financeiro. A segunda lente, a da clareza... Infelizmente ainda é pouco utilizada.
Quando analisamos apenas a transparência nos 3 modelos, eu proponho a seguinte qualificação:
Este é um texto escrito para profissionais do mercado de serviços financeiros então lhe faço um convite para me acompanhar no seguinte raciocínio:
Passa-se um tempo...
... Sabemos a resposta...
Esta mesma sequencia de fatos acontece no modelo híbrido, uma vez que a maior parte da remuneração do profissional neste modelo vem da transação de produtos.
Então, no que tange a transparência, podemos dizer que quem detém as regras do jogo é a empresa dona do produto, dona do “fluxo do dinheiro”
"Quem detém as regras do jogo é a empresa dona do produto, dona do “fluxo do dinheiro”"
Agora vamos analisar os 3 modelos sob a lente da clareza. Para esta análise eu proponho a seguinte qualificação:
Primeiro, a definição de clareza... E também de transparência em nosso mercado:
Transparência existe quando você diz como funciona o seu trabalho, o quanto ganha e como é remunerado.
Clareza é quando o cliente entende o quanto a transparência custa para ele.

Este exemplo traz para análise o real efeito da cobrança de um percentual sobre os ativos do cliente, o modelo chamado de AuM (Assets under Management)
Situação:
Ativos do cliente: 98.500 x 1,11 = 109.335
Se cliente tivesse deixado o dinheiro dele no benchmark, ele teria: 100.000 x 1,10 = 110.000, ou seja, 665 a mais ou 0,61% a mais...
Ou seja, assumindo um risco menor, pois estamos falando em aderência ao benchmark, o cliente teria uma rentabilidade de cerca de 0,61% a mais no ano.
E como isso fica depois de 40 anos? Partindo do pressuposto de que o profissional sempre conseguiu superar o benchmark em pelo menos 10% todos os anos (algo bastante improvável):
Em resumo, as diferenças ao final de 10, 20, 30 e 40 anos:

Nesta parte do texto eu apresento uma tabela para facilitar o entendimento. Como muitos leem pelo celular, abaixo eu comento os destaques da tabela de vantagens e desvantagens de cada modelo.

Destaques:
O modelo direto é o único que traz a total ausência do conflito de interesses como uma vantagem. Além disso, é o modelo que representa maior autonomia para o profissional e que permite um melhor posicionamento na percepção do cliente. Além de ser o modelo que entrega a melhor remuneração potencial no longo prazo devido a natureza da receita recorrente e crescente do modelo.
Como desvantagem eu destaco que é o modelo mais difícil de operar. A decolagem na carreira é mais lenta, encontrar bons clientes é mais desafiador, o que resulta em menos renda nos primeiros anos de carreira.
Outro ponto que deve ser considerado mais como uma característica do que como uma desvantagem é a necessidade constante e intensa de desenvolvimento pessoal para continuar entregando valor percebido ao cliente.
As vantagens do modelo híbrido residem em receber tanto pela inteligência do trabalho, quando pelo fruto dela, ou seja, a comercialização de um produto.
No lado oposto desta vantagem há a desvantagem de ser um modelo que não é totalmente isento do conflito de interesses. Outra vantagem é a barreira de entrada menor para o cliente, que encontra neste modelo alternativas de serviços por um preço inferior ao modelo direto, o que pode ajudar na decolagem do profissional.
Como desvantagem também destaco que a receita recorrente é oriunda da parte indireta do modelo híbrido, o que significa que o profissional não tem total controle sobre isso, além do fato de que o cliente lhe percebe como um vendedor de produtos diferenciado, mas ainda assim um vendedor.
Quanto ao modelo indireto: As vantagens são a ausência de barreira de entrada para o cliente, o que torna a aquisição de clientes menos desafiadora.
Como desvantagens temos a pressão constante por resultados, a presença do conflito de interesses, o fato de começar todos os meses "devendo" para a carteira (processo comercial puro) e a sua posição como profissional frente ao cliente.
No último mês eu tive a oportunidade de conversar com 23 profissionais do planejamento financeiro pessoal (muitos CFP®) que estão no modelo indireto ou no modelo híbrido e percebi que muitos já tentaram o modelo direto, mas sem sucesso.
Muitos alegam a dificuldade de encontrar clientes e principalmente de manter os clientes. Outros comentam sobre a falta de ferramentas operacionais e tecnológicas para manter um relacionamento (e consequente remuneração) recorrente com os clientes.
Outros, bem corajosos, atestam que não veem a hora de voltar ou de migrar para o modelo direto, mas ainda não podem pois não tem o dinheiro suficiente para realizar a tão sonhada transição de carreira.
De todos os depoimentos os que mais me geram tristeza são aqueles dos que desistiram do modelo direto pois consideram os demais modelos mais fáceis e acreditam podem ganhar mais dinheiro com isso...
E percebo tudo isso como verdade! Mas também com tristeza, mas este é tema de um outro texto.
Por hora eu quero apenas deixar uma reflexão como um convite para que ampliemos o diálogo acerca dos modelos.
Eis a reflexão:
"De nada adiantam os ensinamentos acerca dos modelos se a mente das pessoas continuar formatada como sempre estiveram."
Então a discussão não deveria ser apenas sobre os modelos de negócio, mas principalmente sobre os modelos mentais que estão incrustados / arraigados na mente dos profissionais de serviços financeiros.
Qual é a sua visão sobre isso?
Qual é o melhor modelo?
Forte abraço,
André Novaes, CFP®
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